Metal Rorschach
Heavy Metal oitentista, sem dúvida e sem perdão

Set
24

A NWOBHM está estabelecida, desde a segunda metade dos anos 90, como um dos subgêneros que gera maior mobilização entre os colecionadores de Heavy Metal. Muito se deve à própria natureza do movimento, que de certo modo herdou algumas características do punk rock, que havia estourado no Reino Unido um pouco antes – em especial o conceito de produção independente, que era muito raro antes do mercado ser tomado por bandas influenciadas por Ramones, Sex Pistols e The Clash. Assim, os colecionadores podem buscar não somente o material licenciado por selos oficialmente constituídos, como também uma série de materiais produzidos na cara e na coragem, lançados em vinil ou em demos. 

Mas, além disso, há ainda uma forma de obter registros em áudio de bandas há muito esquecidas – e que, em vários casos, foram ignoradas pelas gravadoras da época. Trata-se das gravações feitas a partir de programas de rádio da BBC – e em especial, no caso do Heavy Metal, para o “Friday Rock Show”. O programa teve uma vida longa, tendo existido de 1978 a 1993, quase sempre sobre o comando do lendário Tommy Vance. Semanalmente, o programa privilegiava o Heavy Metal nas ondas do rádio, e entre suas atrações havia um quadro no qual bandas emergentes tinham a oportunidade de tocar até quatro músicas, sempre ao vivo e sem overdubs. Havia também um bloco chamado “Rock War”, no qual os ouvintes votavam para escolher a melhor dentre três bandas demo reproduzidas no programa. Graças ao “Friday Rock Show”, bandas hoje seminais como Iron Maiden, Saxon, Angel Witch e Diamond Head tiveram a chance de alcançar um país inteiro – conquistando fãs também graças à política sempre entusiástica de Tommy Vance, hoje reconhecido como um dos maiores incentivadores de novas bandas que o Reino Unido já viu.

De qualquer modo, o programa citado não só revelou bandas que depois estouraram, mas também expôs bandas qualificadas que, pelos mais diversos motivos, não deram muito certo e acabaram sumindo. Abaixo, vamos listar algumas das gravações dos programas que circulam por aí – e que hoje em dia, estão preservadas para a posteridade em arquivos mp3 – privilegiando em um primeiro momento as gravações não tão conhecidas e/ou as bandas mais obscuras a participarem do programa. Vamos lá: 

TAURUS

Sem dúvida, a sessão gravada pelo Taurus no dia 17 de abril de 1980 é considerada pelos colecionadores uma das mais valiosas e interessantes de toda a NWOBHM. O quinteto de Middlesbrough era tido como uma grande promessa na época, e conseguiu sua sessão no programa antes mesmo de lançar qualquer material oficial. De fato, a performance teve uma grande repercussão, ao ponto de “Paper Chaser” ser incluída na compilação “Metal Explosion”, lançada no mesmo ano pela BBC Records. Felizmente para nós, as gravações do programa resistiram por cerca de 20 anos, e hoje estão eternizadas como arquivos mp3. Ouvindo as músicas, é até difícil entender como uma banda tão qualificada não alcançou o estrelato: canções envolventes, com ótimo trabalho de guitarras (a própria “Paper Chaser” tem uma seqüência final de solos simplesmente maravilhosa) e uma sonoridade animada e positiva, que traz um sorriso ao rosto de quem ouve as quatro ótimas composições. Atualmente, é muito difícil determinar os músicos envolvidos com a banda naquele momento, embora seja sabido que o baterista Charlie MacKenzie saiu do Black Rose para juntar-se ao Taurus mais ou menos na mesma época, sendo provável seu envolvimento nesta sessão de gravação. Mais tarde, ele se juntaria também ao Samson e ao Emerson. Diz-se que, depois da gravação do “Friday Rock Show” a banda mudou de nome para Raid The North (convenhamos, uma escolha pouco inspirada) e gravou demos para um possível EP pela Columbia, mas o material nunca chegou a ser aprovado pela gravadora. Aparentemente, uma música da banda chegou a aparecer em uma compilação promovida pela revista Kerrang, mas não fui capaz de encontrar informações mais concretas sobre isso. Nesse período, o vocalista Keith Murrel (ex-Airrace e futuro Mama’s Boys) teria se juntado à banda, e novas demos teriam sido gravadas, incluindo sessões registradas nos EUA, enquanto a major EMI demonstrava interesse no conjunto. Seja como for, nada disso deu certo e a banda encerrou atividades sem lançar nenhum material próprio, o que entre outras coisas evidencia a mentalidade obtusa de certos executivos de gravadoras. Menos mal que alguém teve uma iluminação divina e gravou o programa de rádio, e que essa gravação resistiu por duas décadas, oferecendo aos fãs da NWOBHM a chance de ouvir pelo menos parte do material desta ótima banda.
Data da sessão: 17 de abril de 1980
Formação: desconhecida
Músicas: Paper Chaser / Money Honey / Shy Girl / Rockin’ Feeling

EUPHORIA

Muito pouco é conhecido sobre essa misteriosa banda, que um dia calhou de gravar uma sessão para o “Friday Rock Show”. Felizmente, parte da fala do apresentador foi preservada junto com a gravação das quatro faixas – e graças a ela, e apesar das dificuldades de entender o sotaque do apresentador, acabamos não ficando completamente no escuro nesse caso. Aparentemente, a banda era o vôo solo de um certo Peter Laden, que gravou algumas demos em seu quarto (antecipando-se ao ‘boom’ dos programas pessoais de gravação em pelo menos vinte anos) e, sem medo das conseqüências, enviou as gravações para Tommy Vance. Inesperadamente, o homem gostou do que ouviu, e Peter teve que arranjar meio que às pressas músicos que o acompanhassem na sessão. No fim das contas, Ken Donaldson (b) e Alan Happlewhite (d) toparam o desafio, e se eu não entendi os nomes direito vocês terão que me perdoar, pois não existe registro escrito dessas informações em lugar nenhum, seja em livros ou na Internet. De qualquer modo, não se sabe a data da sessão nem o nome das músicas (eu imagino que a primeira chama-se “Looking for You” e a terceira “Don’t Want to Lose You”, mas até aí qualquer um pode discordar), e o som em si não tem quase nada a ver com Heavy Metal, sendo mais um rock melódico despretensioso e de bons arranjos de guitarra – um som agradável, com certeza, mas que só é creditado como NWOBHM por ter supostamente sido gravado na época em questão. Muito provavelmente, o Euphoria nunca chegou de fato a se constituir como uma banda, e deve ter desaparecido assim que seu mentor optou por fazer outra coisa qualquer da vida. Mas apesar disso, e de algumas escorregadas de execução – normais em uma banda formada a toque de caixa, como parece ter sido o caso – a sessão do Euphoria tem valor para os colecionadores mais alucinados do movimento.
Data da sessão: desconhecida
Formação: Peter Laden (v/g), Ken Donaldson (b), Alan Happlewhite (d).
Músicas: desconhecidas

WITCHFYNDE

Embora o Witchfynde não seja exatamente uma banda obscura, as quarto canções registradas no “Friday Rock Show” de 13 de fevereiro de 1981 apresentam algumas curiosidades interessantes. Primeiramente, as gravações são supostamente as únicas feitas pelo vocalista Chalky White, que substituiu no início daquele ano ao cantor original Steve Bridges, que gravou os LPs “Give ‘em Hell” e “Stagefright”. Chalky teria supostamente sido trocado pouco depois por Luther Beltz, embora tenha ficado claro em seguida que um e outro são a mesma pessoa, apenas assinando por nomes diferentes para provocar alguma confusão no público. Há também a inclusão de uma faixa, “Belfast”, que nunca apareceu em álbuns posteriores do grupo – embora tenha sido incluída no LP “The Friday Rock Show” pouco tempo depois da sessão. Trata-se de uma música bastante diferente do material típico da banda, com uma mensagem política que nunca mais apareceria nas letras do conjunto. As outras faixas, embora sejam versões de músicas que já haviam aparecido nos dois primeiros álbuns, nunca foram lançadas em outro lugar, de modo que são interessantes para fãs do Witchfynde e da NWOBHM em geral. Depois disso, o grupo lançaria dois bons LPs (“Cloak and Dagger” and “Lords of Sin”) antes de encerrar atividades pela primeira vez, na segunda metade dos anos 80. No fim dos anos 90, a banda voltaria à ativa, em uma seqüência confusa de eventos: primeiramente, com praticamente a mesma formação dessa gravação para a BBC, depois se misturando com uma série de membros do Stormwatch e em seguida formando duas bandas distintas com o mesmo nome, uma com Luther Beltz e outra com os demais músicos de 1981. Depois de muita confusão, Luther Beltz mudaria a grafia de sua banda para Wytchfynde (com dois ‘y’), enquanto os demais músicos escalariam o vocalista Harry Harrison (ex-Clownhouse) para o álbum “The Witching Hour” em 2001. Atualmente, tanto uma banda quanto a outra estão adormecidas, embora comentários sobre um novo CD do Witchfynde (com um ‘y’ só) existam desde 2006.
Data da sessão: 13 de fevereiro de 1981
Formação: Chalky White (aka Luther Beltz) (v), Montalo (g), Pete Surgey (b), Gra Scoresby (d).
Músicas: Gettin’ Heavy / Give ‘em Hell / Moon Magic / Belfast

LAST FLIGHT

Outra banda que teve uma de suas músicas incluída em coletâneas da BBC, o Last Flight surgiu por volta de 1977, ainda atendendo pelo nome de Business. Liderado pelo vocalista Bob Hawthorne (anteriormente vocalista do Strider), o grupo mudou de nome na virada da década, e em 1981 lançou pela Heavy Metal Records o single “Dance To the Music” (com “I’m Ready” no lado B). A sessão para a BBC foi gravada praticamente ao mesmo tempo, e apresentou uma banda de alta qualidade, com músicas marcantes e refrãos envolventes numa linha bem hard / heavy de ser. Não surpreende, portanto, que a versão de “Dance to the Music” tenha sido incluída no LP “The Friday Rock Show”, compilado em 1981 a partir de gravações tiradas do programa homônimo. No entanto, como muitas bandas qualificadas da época, o Last Flight não conseguiu capitalizar em cima da boa repercussão do programa e, apesar de gravar demos para um grande número de novas composições, Bob Hawthorne deixa a banda em 1982, pouco depois unindo forças ao Alaska, projeto capitaneado pelo ex-Whitesnake Bernie Mardsen. O Last Flight aproveitou para participar como banda de apoio do álbum “Electric Cinema”, projeto solo de Kioji Yamamoto (guitarrista do Bow Wow), e mais tarde confirmou John Barr (que curiosamente havia sido baixista do Chinatown) como novo vocalista. A nova encarnação do Last Flight fracassou, porém, e nenhum material extra da banda jamais foi lançado. Dos músicos da banda, o baterista Graham Waxman teria uma breve passagem pelo Driveshaft, enquanto John Barr teria viajado aos EUA e se juntado a um certo Tokyo Rose . Já Bob Hawthorne continua na música até hoje, embora aparentemente esteja atuando como um cantor de cabaré… De qualquer maneira, como as demos da banda são dificílimas de localizar hoje em dia, as gravações do programa de rádio são a melhor chance de ouvir material do Last Flight que não o incluso no single – de modo que obter esses arquivos acaba sendo uma medida de pura sensatez metálica.Data da sessão: 20 de março de 1981
Formação: Bob Hawthorne (v), Pauk Murray (g), Jim Sinfield (b), Graham Waxman (d).
Músicas: I’m Ready / Dance to the Music / Everybody Fight Some / Headlines

MONEY

A trajetória da banda é um tanto quanto inusitada, sendo na verdade um grupo formado na metade da década de 70 e já com um LP lançado antes de ser arrastado pela Nova Onda e passar a ser reconhecido como um representante da NWOBHM. O Money surgiu por volta de 1976, e já em 1978 assinaria contrato com o selo Gull, o mesmo que anos antes lançara os primeiros LPs do Judas Priest. Por essa gravadora, o Money lançaria um single em 1978 – “(Aren’t We All) Searching” / Where Have All The Dancers Gone?” – e um LP no ano seguinte, chamado “First Investment” e produzido pelo conceituado Chris Tsangarides. A sessão para a BBC ocorreu em 22 de fevereiro de 1980, e apresentou “Leo the Jester” (uma das composições do primeiro LP) ao lado de três músicas inéditas à época. O som da banda era muito mais próximo do rock setentista à Queen do que do Heavy Metal, com músicas longas e de arranjos complicados, mas o talento e a coesão dos músicos ao executá-las ao vivo acabou conquistando o respeito dos ouvintes do programa. A versão de “Leo the Jester” seria incluída no LP “Metal Explosion”, e outras duas músicas gravadas naquela sessão surgiriam mais tarde (regravadas) em um EP lançado pela Hobo Records no final de 1980. “Man In A Subway”, no entanto, nunca mais surgiria em lugar algum, sendo o grande ponto de interesse deste material. Trata-se de uma gravação bastante rara e dificílima de obter, de qualquer modo – como, em escala um pouco menor, são quase todos os lançamentos do grupo – e certamente enriquecerá sobremaneira a coleção de qualquer um que tiver a sorte de encontrá-la. De qualquer modo, o Money chegou a apresentar ao vivo várias músicas que fariam parte de um segundo LP, mas nunca chegou a gravá-las profissionalmente, e o material nunca chegou a ver a luz do dia – mesmo porque, por volta de 1982, o conjunto já não existia mais. O baterista Tony Boden chegou a tocar brevemente com o Tytan após a saída de Les Binks, mas logo depois optaria por uma vida distante da música, como os seus ex-companheiros de banda.
Data da sessão: 22 de fevereiro de 1980
Formação: David West-Mullen (v), John Overton (g), Larry Philips (b), Tony Boden (d).
Músicas: Man In A Subway / Fast World / Another Case of Suicide / Leo the Jester

JAGUAR

Outra banda bastante conhecida, mas que apresenta uma “BBC Session” que foge um pouco ao tradicional. O Jaguar vinha lançando material desde o início dos anos 80, e é desnecessário lembrar aos entusiastas da NWOBHM que o álbum “Power Games”, de 1983, é um dos clássicos indiscutíveis da época. No entanto, a gravação realizada para a BBC e levada ao ar em 13 de abril de 1984 não contempla esse período clássico do Jaguar, e sim a época do álbum “This Time”, considerado por muitos um dos LPs mais decepcionantes de todo o movimento. De fato, a banda havia promovido uma mudança completa de sonoridade, abandonando o Heavy Metal veloz e agressivo do seu período de glória em troca de um pop rock quase sem peso e carente de energia ou inspiração. A mudança foi tão drástica que a própria Neat Records (selo que lançara “Power Games”) recusou-se a colocar nas lojas o novo disco, sendo a Roadrunner (que atuara no LP anterior apenas como distribuidora) a responsável final pelo lançamento. Quando da gravação dessa sessão, a banda havia incorporado definitivamente o tecladista Gareth Johnson (algo que seria impensável para o som cru e direto de pouco tempo antes) e o baterista Chris Lovell, um dos fundadores da banda, havia abandonado o barco, sendo substituído na gravação por Gary Davies. O som das quatro músicas, embora sem dúvida mais energético do que nas versões medíocres incluídas no LP, é constrangedoramente diferente do Jaguar que havia conquistado tantos admiradores – de maneira que chega a ser difícil entender onde estavam eles com a cabeça quando mudaram sua sonoridade de modo tão inesperado e infeliz. Enfim, é um material que nunca foi lançado oficialmente, de modo que colecionadores mais obsessivos haverão de correr atrás dessas gravações. Depois do fracasso de “This Time”, a banda acabou, com parte dos músicos insistindo numa linha mais AOR e formando o The Arena, que no entanto nunca chegou a alcançar qualquer tipo de sucesso ou reconhecimento. O baixista Jeff Cox teve um pouco mais de sorte, e em 1991 lançaria um CD chamado “Diamond Dust” com uma banda chamada The Lost Boys. No final dos anos 90, o Jaguar voltou à ativa, retomando a sonoridade metálica dos primeiros lançamentos, e já presenteou os entusiastas com uma série de CDs de alto nível desde então.
Data da sessão: 13 de abril de 1984
Formação: Paul Merrell (v), Gary Pepperd (g), Jeff Cox (b), Gary Davies (d), Gareth Johnson (k).
Músicas: (Night of) Long Shadows / This Time / Last Flight / Stand Up (Tumble Down)

CHEVY

Por fim, um material um pouco diferente. As duas gravações do Chevy que discutiremos aqui não foram feitas para o “Friday Rock Show”, e sim para um programa chamado “In Concert”, que privilegiava bandas um pouco mais consolidadas e oferecia a elas mais tempo de exposição, registrando parte de uma apresentação ao vivo. O Chevy era uma banda em ascensão na época da primeira sessão, tendo acabado de lançar seu agradabilíssimo primeiro LP, e surpreendendo o público em uma série de shows energéticos e bem tocados. O grupo tinha acabado de lançar o single de “The Taker” em apoio ao álbum, e a música aparece nessa gravação de fevereiro de 1981, ao lado de algumas outras faixas do LP. Surpreendentemente, nada menos que três faixas inéditas também se fizeram presentes, e todas muito boas – com destaque para a vibrante “Wind of Change”, uma música que, a se crer na conversa do vocalista Martin Cure antes da mesma, foi composta poucas semanas antes daquele show. Entre outras coisas, essas faixas nos permitem avaliar que o segundo álbum do Chevy tinha tudo para ser tão bom ou ainda melhor que o primeiro – e, se ainda restam dúvidas, basta ouvir a segunda participação do Chevy no “In Concert”, ocorrida em abril de 1983 e constituída quase exclusivamente de (ótimo) material novo. É realmente uma pena que a Avatar (selo que lançou o primeiro álbum) não tenha apoiado o surgimento de um novo disco, e que ao mesmo tempo a banda tenha passado a vivenciar uma série de mudanças de formação, pois é bem provável que tivéssemos ao menos mais um grande álbum para abrilhantar nossas coleções. Infelizmente, fora um single apresentando “Just Another Day” (uma composição de Russ Ballard) como lado A, nada mais surgiria sob o nome Chevy, e a banda encerraria atividades na metade dos anos 80. Alguns dos músicos formariam um conjunto chamado Red On Red, mas sem atingir grande sucesso – restando aos fãs esses registros ao vivo, nos quais se pode ter ao menos uma pequena amostra do que poderia ter sido, fosse o mundo um pouco mais justo.
1ª sessão
Data: Fevereiro de 1981
Formação: Martin Cure (v), Paul Shanahan (g), Steve Walwyn (g), Bob Poole (b), Andy Chaplin (d).
Músicas: Chevy / Hit And Run / The Taker / Wind Of Change / Same Old Feeling / Rock On
2ª sessão
Data: Abril de 1983
Formação: Martin Cure (v), Paul Shanahan (g), Barry Eardly (g), Bob Poole (b), Ted Duggan (d).Músicas: Heart of Stone / Run For Your Life / Do What You Wanna Do / Flash Car / Chevy / Wind of Change

Em breve, mais algumas pérolas do metal bretão, tiradas diretamente das gravações da BBC. Muito obrigado, e até breve.

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Ago
06

Ficar aqui tecendo comentários sobre a importância de Bruce Dickinson para a NWOBHM e para o Heavy Metal em geral é chover no molhado. Depois de alguns anos bem sucedidos à frente do Samson, o vocalista assumiu os microfones do grande colosso do movimento, o gigante Iron Maiden, e se tornou uma referência mundial para vocalistas e apreciadores de som pesado. Hoje, já há algum tempo reintegrado à Donzela, o vocalista mantém paralelamente uma quase sempre elogiada e bem sucedida carreira solo. De qualquer modo, os fãs mais dedicados certamente estão cientes do trabalho de Bruce ao lado de duas bandas menos bem sucedidas, o Speed e o Xero. O artigo a seguir procura dar um pouco de informação sobre essas duas bandas, o que nos levará igualmente a citar brevemente alguns outros projetos no qual o vocalista andou envolvido na época. Em comum, os dois lançamentos têm mais do que a voz do “air raid siren”: a pecha de serem produtos caça-níqueis feitos para lucrar em cima da fama do cantor.

SPEED

O primeiro registro conhecido dos dotes vocais de Bruce Dickinson está em um single lançado em 1980 por uma banda desconhecida chamada Speed. Trata-se de um lançamento independente que provavelmente teve uma tiragem muito pequena, já que hoje é raridade dificílima de encontrar e custa fortunas nas poucas oportunidades em que aparece à venda. O single não tem capa, apenas o envelope branco típico dos itens independentes, mas contém um encarte com supostas informações sobre o lançamento e sobre a trajetória da banda responsável por ele. A se crer no que consta ali, o Speed teria surgido em 1979, gravando as duas músicas (“Man in the Street” e “Down the Road”) em 1980 com Bruce Dickinson atuando como vocalista convidado, e estaria em plena atividade, pronta para fazer shows onde quer que a oportunidade surgisse.

A verdade, no entanto, parece ser outra. Declarações de Bruce dão a entender não só que a data creditada às gravações está errada, mas também que em momento algum ele chegou a ser informado do lançamento do single! Na verdade, Bruce foi um dos fundadores do Speed, ao lado do baixista Noddy White. O projeto foi arquitetado na metade dos anos 70, depois do fim do primeiro projeto musical de Bruce, que atendeu pelos nomes de Paradox e Styx antes de encerrar atividades. Na versão de Bruce, contida na “NWOBHM Encyclopedia” de Malc McMillan, o grupo fez um bom número de shows (tendo até aberto algumas das primeiras aparições do Angel Witch), mas encerrou atividades tempos antes do estouro da NWOBHM. As gravações do single nem seriam produto do Speed propriamente dito, mas demos que Noddy White gravou em 1978 com alguns amigos, tempos depois do término das atividades da banda. Ou seja, a se crer no relato de Bruce, as datas contidas no material promocional do single são falsas, e o lançamento em si ganha ares nítidos de um golpe financeiro, feito para ir na cola do à época vocalista do emergente Samson.
Musicalmente, não é um som tão pesado e veloz quanto o nome sugere, e embora nenhuma das duas canções seja ruim, tampouco podem ser consideradas pérolas esquecidas nem com muita boa vontade. O som de modo geral lembra mais o assim chamado “biker rock” do que o Heavy Metal (embora “Man In the Street” tenha um andamento mais agitado do que o usual em bandas da época), e o uso de teclados acaba lembrando às vezes os momentos menos interessantes do The Doors (!!!). Além de Bruce Dickinson e Noddy White, a ficha técnica credita também Steve Adams (G), Jeff Moody (D) e Gary Edwards (K). Vale como item para viciados em Iron Maiden – muito embora a raridade do single faça dele uma aquisição complicada e sem dúvida salgadíssima. De qualquer modo, “Man In the Street” está no Volume 7 da conhecida série de bootlegs com singles raros da NWOBHM, e com sorte dá para encontrar mp3 das duas músicas em algum programa Peer2Peer por aí. Sairá bem mais barato, certamente.

XERO

O caso do Xero, embora menos obscuro em seus meandros do que o do Speed, é certamente mais infeliz e de resultados mais devastadores. Ao invés de ser uma banda de garagem já extinta que tem seu nome “ressucitado” com objetivos pouco nobres, o Xero era sim um conjunto de potencial dentro do turbilhão da NWOBHM, e acabou sendo muito mais prejudicado do que favorecido pela associação com Bruce e sua banda de momento, no caso o gigante Iron Maiden. Na época do lançamento do item em questão (o EP “Oh Baby” de 1983), o grupo liderado pelo guitarrista Bill Liesegang já tinha participado de três coletâneas diferentes, e seu primeiro lançamento individual era aguardado com certa ansiedade na cena.

O grupo apareceu primeiramente na segunda edição de “Metal for Muthas”, lançada pela EMI em 1980, com uma música empolgante chamada “Cutting Loose”, e mais ou menos no mesmo período compareceu também na compilação “Brute Force” da MCA, com uma música mais melódica mas ainda assim bastante forte chamada “Hold On”. Com a boa repercussão dessas aparições, o emergente conjunto foi convidado a participar de uma das famosas sessões do “Friday Rock Show”, programa de rádio comandado por Tommy Vance na BBC. Quatro músicas (“Can You See Me”, “Lone Wolf”, “Don’t You Think It’s Time” e uma nova versão de “Cutting Loose”) foram registradas em ‘takes’ ao vivo, e veiculadas na edição de 10 de abril de 1981. Pouco depois, a mesma “Cutting Loose” apareceria no LP “The Friday Rock Show”, que compilava as aparições mais bem sucedidas dos meses anteriores do programa. Assim, fica fácil perceber que o Xero estava em ascendência, e o anúncio de um EP pela pequena Brickyard Records poderia ser um passo decisivo rumo ao topo do cenário da época.
Na época, a banda contava com Bill Liesegang (G), Boon Gould (B), Barry Fitzgerald (D) e Moon Williams (V), que foi brevemente substituído por Billy Little em algumas demos mas acabou retornando aos microfones para a gravação do single. Foi anunciado o iminente lançamento de um single, contendo a nova “Oh Baby” e reutilizando “Hold On” como lado B. De repente, os anúncios mudaram, e surgiu finalmente um EP de três faixas, em formatos 7’’ e 12’’, contendo uma versão de “Lone Wolf” (que havia aparecido no programa de rádio da BBC com Moon Williams na voz) com a participação de Bruce Dickinson nos vocais. Alegadamente, tratava-se de uma gravação tirada de uma das primeiras demos do Xero, antes da entrada de Moon; mas logo ficou claro que a verdade, no fim das contas, não era bem por aí.

Bruce Dickinson e Bill Liesegang se conheciam desde a segunda metade dos anos 70, quando se envolveram na formação de uma banda chamada Shots. O grupo acabou conquistando um séquito razoável nos tempos pré-NWOBHM, e boa parte do sucesso devia-se ao próprio Dickinson, que tinha uma performance intencionalmente caricata – era comum, por exemplo, o vocalista parar no meio de uma música para xingar alguém na platéia que estivesse distraído ou pouco interessado no show. Aparentemente, isso surgiu a partir de reações genuínas do cantor (afinal, sabemos que Bruce não é exatamente a figura mais tranqüila e diplomática do mundo), mas o grupo acabou incorporando-a ao seu estilo de palco e o mau gênio do vocalista tornou-se uma esperada atração nos shows da banda. Foi após assistir um show do Shots em 1979 que Paul Samson decidiu convidá-lo a ingressar na sua própria banda, o Samson. Com a saída de Bruce, o Shots perdeu muito do seu apelo, e acabou encerrando atividades. Bill Liesegang formaria posteriormente o Xero – e a gravação de “Lone Wolf” que aparece no EP é na verdade tirada de uma demo particular do Shots, que Liesegang e os empresários do Xero julgaram financeiramente interessante incluir no single como um chamariz para aumentar as vendas. O problema é que, ao contrário da situação aparente do Speed, Liesegang e o Xero não eram os reais proprietários das gravações, e isso acabou abrindo caminho para uma bela confusão.

Os advogados do Iron Maiden (que na época ainda saboreava o sucesso estrondoso de “The Number of the Beast”) logo ameaçaram o Xero e a Brickyard Records com processos, o que fez com que a edição original fosse recolhida das lojas. Uma nova série de lançamentos, constituída de um single 7’’ (com as duas faixas originalmente previstas, omitindo “Lone Wolf”) e um EP em 12’’ (substituindo a faixa proibida por uma instrumental chamada “Killer Frog”, tirada de uma das últimas demos) foi lançada, mas a essa altura o estrago à credibilidade da banda já havia sido feito. As vendas do novo pacote foram baixas, e o impacto negativo de todo o embaraço acabou sendo forte demais para o Xero. Chegou a se anunciar o lançamento de um single contendo “Don’t You Think It’s Time” como chamariz, e até mesmo um álbum com o título de trabalho “First Mission” chegou a ser anunciado durante o ano de 1984. No entanto, nenhum desses itens chegou a ser lançado de fato, e a falência da Brickyard acabou sendo também o fim da linha para o Xero. Hoje, o material contendo “Lone Wolf” é perseguido por colecionadores, mas a verdade é que mesmo a segunda ‘fornada’ de “Oh Baby” aparece com pouca freqüência à venda, de modo que ambos são materiais relativamente raros e interessantes para colecionadores obsessivos da NWOBHM. A versão com “Killer Frog” foi relançada em CD, como parte da coletânea “NWOBHM Metal Rarities Vol. 2”, editada pela British Steel em 1996, de modo que hoje é mais fácil o acesso a ela do que à versão “proibida”.

Agradecimentos a Malc McMillan e sua ‘NWOBHM Encyclopedia’ e ao site Xtreme Musician pelas informações sobre os primeiros dias de Bruce Dickinson. Obrigado.

Ago
06

Das muitas bandas da NWOBHM que tiveram suas carreiras limitadas a um ou dois escassos itens em vinil, algumas acabam despertando especial interesse entre os colecionadores. Uma delas, certamente, é o Gogmagog. E é fácil entender os motivos – afinal, esse grupo lançou apenas um EP em 1985, e tinha em suas fileiras um time absolutamente estelar, composto de alguns dos grandes nomes da cena britânica. Vejam só: Paul Di’Anno (ex-vocalista do Iron Maiden), Clive Burr (outro ex-Maiden, que também havia passado pelo Samson), Janick Gers (na época ex-White Spirit), Neil Murray (baixista de muitos nomes respeitáveis como Gary Moore e Whitesnake) e Pete Willis (ex-guitarrista do Def Leppard). Promissor, não? No entanto, as coisas não são tão bonitas quanto parecem à primeira vista, e o que poderia ter sido um dos super-grupos da NWOBHM acabou sendo uma experiência constrangedora para os envolvidos e para a cena de modo geral.

Na verdade, o Gogmagog é uma idéia surgida da mente de Jonathan King (foto), DJ e produtor musical que chegou a ser o presidente da Decca Records entre as décadas de 60 e 70 e foi responsável por descobrir artistas de muito sucesso comercial como Bay City Rollers e 10cc. Disposto a lucrar em cima da fatia mais acessível do Heavy Metal (que, graças a bandas como o Def Leppard, estava entrando em considerável evidência), King resolveu montar uma espécie de super-grupo, juntando nomes poderosos do Metal britânico e colocando-os na estrada com uma grande produção de palco e o máximo possível de cobertura de mídia. Ou seja, a junção dos músicos não foi nada natural, e sim o resultado de uma série de telefonemas e propostas de contrato.

Consta que alguns músicos foram contatados e recusaram a oferta, entre eles John Entwistle (baixista do The Who, na época às voltas com projetos solo) e Cozy Powell (baterista mundialmente famoso por suas participações no Rainbow e no Whitesnake). De qualquer modo, King conseguiu formar a banda, e vale lembrar que a maioria dos músicos que toparam a parada estavam em situação complicada na época. Paul Di’Anno (foto) havia saído do Iron Maiden e lançado um álbum solo que tinha sido um completo fracasso de vendas; Pete Willis havia acabado de se desligar do Def Leppard; e Clive Burr não tivera sucesso com seu projeto pós-Maiden, chamado Stratus e formado também por ex-músicos do Praying Mantis. Portanto, não é absurdo supormos que, muito mais do que a possibilidade de formar uma grande banda, foi a promessa de bons aportes financeiros que incentivou esses músicos a assinarem os contratos e colaborarem com o Gogmagog.

Há várias controvérsias sobre fatos referentes ao conjunto, e uma delas refere-se à gravação das três faixas que fizeram o EP do conjunto. Segundo algumas fontes, trata-se de material gravado para um LP que nunca saiu, e poderiam inclusive existir mais músicas inéditas do Gogmagog criando mofo em alguma gaveta por aí. No entanto, outros dizem que essas faixas são de uma demo gravada para convencer promotores de shows a investir no grupo, e pessoalmente me sinto mais inclinado a crer na segunda hipótese. De qualquer modo, as três músicas não foram compostas pelos músicos da banda, e sim por uma parceria de Jonathan King e Russ Ballard – compositor bastante requisitado na primeira metade dos anos 80, que compôs maravilhas como “Tonight” (Tokyo Blade) e “Riding With the Angels” (Samson). As músicas foram de fato apresentadas para várias figuras importantes do show business na tentativa de agendar uma turnê, mas aparentemente a resposta ao material foi ruim e, mesmo com todo o cartaz de King e dos músicos envolvidos, nenhuma apresentação de fato ocorreu. A demora em acertar esses detalhes acabou sendo decisiva para a vida curta do projeto, e logo todos os envolvidos saltaram fora do barco, não raro com um mal-disfarçado constrangimento.

O EP acabou sendo lançado postumamente em 1985, através da Food For Thought (uma subsidiária da Music For Nations). As três músicas chamam-se “I Will Be There” (o nome do EP), “Living in a Fucking Time Warp” e “It’s Illegal, It’s Immoral, It’s Unhealthy, But It’s Fun”, e dividem seriamente a opinião dos que ouvem o EP: há quem goste bastante do material, do mesmo modo que muitos o consideram uma tragédia musical. O encarte apresenta uma versão um tanto fantasiosa sobre a história do grupo, dizendo que a banda foi um projeto espontâneo, destinado a salvar o Metal e que acabou prejudicado pelo azar e pela falta de visão de algumas pessoas ligadas ao mundo da música. De qualquer modo, as vendas foram baixíssimas (o fato de não existir mais a banda para promover o vinil deve ter contribuído para o fracasso) e logo o EP do Gogmagog viraria não mais do que um item para colecionadores da NWOBHM e de material relacionado ao Iron Maiden.

Como dito acima, os músicos envolvidos não ficaram exatamente orgulhosos do resultado do EP, e mais de uma vez deixaram bem claro o caráter meio caça-níquel de todo o projeto. Pete Willis e Janick Gers já se referiram ao mesmo em entrevistas de modo pouco animador, e Paul Di’Anno por muitos anos simplesmente se recusou a comentar o assunto. De qualquer modo, todos os músicos envolvidos seguiram em frente com suas carreiras. Paul Di’Anno formou projetos como o Battlezone e o Killers, e ainda atua incansavelmente em shows ao redor do mundo. Neil Murray gravaria mais tarde com o Black Sabbath, enquanto Janick Gers participaria da banda solo de Bruce Dickinson e, como sabemos, hoje é um dos três guitarristas do Iron Maiden – num desenlace curioso, posto que tocou com dois ex-Maiden no Gogmagog muitos anos antes de entrar ele mesmo na banda de Steve Harris. Pete Willis (foto) formou os não muito bem sucedidos Nightrun e Roadhouse, e Clive Burr emprestou seu talento a bandas como Desperado e Elixir. Já Jonathan King, embora tendo demonstrado nesse mal sucedido projeto seu desconhecimento de Heavy Metal, tentaria uma vez mais sua sorte no estilo, empresariando o jovem conjunto Briar. O conjunto havia lançado em 1985 o elogiado LP “Too Young”, e orientado por King optou por mudar radicalmente seu estilo – o que resultou em 1987 no disco “Crown Of Thorns”, um trabalho na verdade altamente constrangedor que tem até um cover de “La Bamba”, de Ritchie Valens. Mais tarde, “It’s Illegal, It’s Immoral, It’s Unhealthy, But It’s Fun” (registrada no EP do Gogmagog) seria regravada pelo Briar, e apareceria como lado B de um single antes que o grupo desaparecesse de vez do cenário musical. Recentemente, Jonathan King andou tendo problemas com a justiça (foi condenado por abuso de menores, acusação que sempre negou com veemência) e anda envolvido com a carreira de conjuntos lucrativos como The Corrs e Chumbawamba. Bem longe do Heavy Metal, felizmente.

Agradecimentos à “NWOBHM Encyclopedia” de Malc McMillan e aos vários sites que me forneceram informações e fotografias para essa matéria. Muito obrigado.

Ago
06

Faleceu no início dessa semana o baixista Chris Aylmer, que se tornou famoso no mundo da NWOBHM por ter sido durante muitos anos baixista do grupo Samson. A causa exata da morte não foi divulgada: há apenas referências a uma “doença” que teria acometido Chris por um bom tempo antes de seu falecimento.

Antes de entrar no Samson, Chris Aylmer (bem à direita na foto ao lado) tocava guitarra em uma banda chamada Maya e fazia serviços como roadie para várias bandas, inclusive para o projeto de John McCoy, com o qual o próprio Paul Samson esteve envolvido por alguns anos. Quando McCoy juntou-se à banda de Ian Gillan, Paul Samson resolveu continuar com a banda, e chamou Chris para assumir o baixo. Depois de alguma prática, Chris pegou o jeito da coisa, e foi dele a sugestão da banda assumir o nome Samson. Pouco depois, com a saída do baterista original Roger Hunt, o novo baixista sugeriu que um de seus colegas de Maya assumisse o posto – e esse amigo era ninguém menos que Clive Burr, que mais tarde faria história especialmente com o Iron Maiden.

Chris Aylmer esteve com o Samson nos momentos mais significativos de sua história e vivenciou o crescimento e explosão da NWOBHM em uma posição privilegiada. Gravou os quatro primeiros discos da banda, e fez parte da que por muitos é tida como a formação clássica do Samson (Aylmer, Samson, Thunderstick e Bruce Dickinson, na época Bruce Bruce, essa que você vê na foto ao lado). Saiu no início de 1984, insatisfeito com as constantes mudanças e incertezas dentro da banda, e por um curto período participou do Rogue Male. Depois, envolveu-se com vários projetos de pequeno porte e curta duração, como o Head Over Heels e o M:80. No início dos anos 90, o círculo fecharia, e Chris Aylmer reuniu-se com Paul Samson, participando das gravações do álbum “1993” (em alguns lugares lançado como um CD auto-intitulado). Pouco depois, Chris Aylmer formou um novo projeto, chamado Doctor Ice.

Durante algum tempo, foi fortemente cogitada a possibilidade de uma reunião da line-up clássica, e consta que até o próprio Bruce Dickinson estava muito animado com a possibilidade. No entanto, a reunião do músico com o Iron Maiden tornou impossível realizar esse encontro, e o trio Samson-Aylmer-Thunderstick participou do famoso festival “20th NWOBHM Anniversary”, ocorrido no Japão em 1999. O vocalista Nicky Moore uniu-se aos três para alguns shows em festivais europeus de verão (entre eles o Wacken 2000) – mas depois desses shows as coisas acalmaram, de modo que Chris voltou a dedicar-se ao Doctor Ice e a dar aulas particulares de baixo e guitarra. Embora não tenha participado das gravações do álbum póstumo de Paul Samson (“P.S….”, lançado em setembro do ano passado pela Angel Air), Chris contribuiu com algumas composições – e com o falecimento do baixista, esse CD acaba sendo também a última contribuição de Chris Aylmer no mundo da música.

O NWOBHM VIVE! deixa aqui sua homenagem e seu agradecimento a um músico de alta qualidade, que colaborou de forma decisiva no fenômeno da NWOBHM e que deixou um legado que estará sempre na memória de inúmeros fãs. Muito obrigado, Chris.

Ago
06

Como sabemos, um número imenso de bandas surgiu durante os três ou quatro anos tidos pela maioria dos interessados como o período clássico da NWOBHM – e, considerando-se a quantidade delas, não surpreende que a grande maioria delas tenha simplesmente ficado pelo caminho, sem lançar mais do que singles ou no máximo EPs independentes. Motivos são vários: algumas perderam músicos importantes em momentos decisivos, outras simplesmente não eram tão boas, algumas tomaram decisões erradas e existem também as que foram, simplesmente, injustiçadas. Nesse seleto grupo, eu sem dúvida incluiria o Mendes Prey. O grupo de Castleford, Yorkshire foi, simplesmente, uma das bandas mais talentosas de toda a NWOBHM, e certamente seria hoje idolatrada por multidões se tivesse recebido a chance de gravar um LP no auge de sua criatividade. De qualquer modo, alguns itens foram lançados, e hoje o Mendes Prey é tranquilamente uma das bandas mais queridas pelos entusiastas e colecionadores do Movimento, com uma história fascinante que nos dedicaremos a descrever abaixo.

Os primórdios do Mendes Prey de certo modo remontam à metade dos anos 70, quando os músicos que mais tarde constituiriam a banda tocavam em um sem-número de conjuntos amadores da área. De qualquer modo, podemos dizer que por volta de 1979 surgiu finalmente o núcleo do Mendes Prey, formado pelo vocalista Jih Seymour (foto), pelos guitarristas Steve Holt e Phil Lawn e pelo baterista Martin Brough. Todos já tinham, digamos assim, as marcas da estrada: Seymour, por exemplo, cantava em bandas da região desde 1974 e Holt alegava ter tocado em nada menos do que 13 grupos locais antes de se juntar ao Mendes Prey.

Entre 1979 e 1980, vários baixistas tocaram na banda, a maioria deles ficando muito pouco tempo. Depois de muitos candidatos, finalmente o posto de baixista foi ocupado por Tony Boulton, que anteriormente vinha tocando com o Vardis. Com essa formação, o grupo entrou no Woodlands Studio em janeiro de 1981 para registrar sua primeira demo. Foram gravadas as músicas “Lone Survivor”, “Take Me ‘Cross the Water”, “Drifting”, “Losin’ Man” e “Don’t Shine”. O material logo conseguiu repercussão bastante positiva, ao ponto dos Bayley Bros. (conhecidos DJs de Rock da época) colocarem “Drifting” no primeiro lugar da parada que selecionaram para a edição de junho da revista “Sounds” – “Take Me ‘Cross the Water” chegou ao número 9 na mesma seleção. Durante algum tempo, foi fortemente cogitada a possibilidade de lançar esse material em um EP independente, mas o grupo acabou optando por aguardar um pouco mais antes de expor seu trabalho para as grandes massas.

Nesse período, Phil Lawn optou por retirar-se do Mendes Prey e da carreira musical, sendo temporariamente substituído por Richard Emsley. Essa formação foi entrevistada na edição de novembro da revista Kerrang, mas acabou não durando muito, com Emsley saindo para a chegada de Mark Sutcliffe. Com vários shows acontecendo (incluindo bem-sucedidas apresentações abrindo para o Diamond Head), sessões de gravação foram feitas no primeiro semestre de 1982, e delas foi selecionado o material que entraria no primeiro e clássico lançamento em vinil da banda.

Finalmente disponibilizado no final do ano, o 7″ single independente continha a sensacional “On To the Borderline” e a não menos empolgante “Running For You” como lado B, e logo se tornou um item avidamente perseguido pelos headbangers britânicos. Ouvindo as músicas, é fácil entender os motivos: operando numa linha mais Hard Rock, com fortes influências de Thin Lizzy e UFO, as composições são energéticas e certeiras, e a voz marcante de Jih Seymour pode ser colocada sem exageros entre as mais pessoais e competentes de toda a NWOBHM. Uma estréia excepcional, que compreensivelmente despertou grande atenção de todos os lados.

Ainda nesse ano, outra ótima composição do quinteto (“What the Hell Is Going On”) foi incluída pela Heavy Metal Records na segunda edição de sua compilação Heavy Metal Heroes, conseguindo destacar-se positivamente mesmo com a concorrência de nomes fortes como Persian Risk, Witchfinder General, Jess Cox (ex-vocalista do Tygers of Pan Tang) e Shiva. No início de 1983, o quinteto (Seymour, Holt, Boulton, Brough e Sutcliffe) fez sua estréia no Marquee em Londres, abrindo shows para Saracen e Chinatown. Gravações de um desses shows ainda resistem e, apesar da qualidade sofrível de gravação, é fácil perceber que o grupo detonava em cima de um palco, mandando versões extremamente fortes e coesas de suas mais significativas composições, para delírio do público. Quem está mais familiarizado com a situação meio bairrista do cenário da época (no qual bandas de uma cidade eram geralmente bem recebidas, enquanto grupos vindos de outra costumavam ter recepções bem menos calorosas) fica ainda mais admirado com o sucesso do Mendes Prey como banda de abertura, e parecia óbvio àquela altura que alguma grande gravadora acabaria assinando com o promissor conjunto.

Enquanto aguardavam uma proposta concreta de alguma gravadora, Jih Seymour e cia. empilhavam sucessos. Um deles ocorreu quando a marca de jeans Levi’s escolheu “What the Hell Is Going On” como tema musical para algumas propagandas de rádio, e como resultado o Mendes Prey acabou assinando um contrato de patrocínio com a empresa. Em troca da utilização da música nos ‘spots’ comerciais, a Levi’s forneceu vários de seus produtos ao quinteto, e colaborou na organização de uma bem sucedida tour, com o Mendes Prey atuando pela primeira vez como ‘headliners’ (a abertura desses shows ficando a cargo do Dagaband). Um desses shows foi gravado em vídeo pela BBC, e três canções completas do grupo (“Red Alert”, “Running For You” e “On To the Borderline”) foram exibidas no programa “Bubbling Under” para todo o norte da Inglaterra. Aparentemente, gravações dessa apresentação ainda existem, mas ninguém ainda afirmou acima de dúvidas possuir esse vídeo, de modo que ficamos na dúvida por enquanto.

Nesse período, o grupo foi tentado pela idéia de utilizar teclados, e Steve Allen assumiu esse papel por um breve período, participando de alguns shows e colaborando em algumas composições. No entanto, a experiência não fluiu tão bem como esperado, e Allen acabou saindo do grupo em seguida. Um golpe mais duro viria no segundo semestre de 1983, quando Steve Holt resolveu também deixar a banda, alegando estar interessado em outros projetos. Ao invés de substituí-lo, o Mendes Prey preferiu se manter como um quarteto, e Seymour, Boulton, Brough e Sutcliffe resolveram diminuir a rotina de shows, concentrando-se na composição e gravação de material para o tão desejado LP de estréia.

Como vimos, o Mendes Prey era um fenômeno em ascensão, e chega a ser inacreditável que nenhuma gravadora tenha feito uma proposta séria de contrato a essa altura. O conjunto gravou duas demos no decorrer de 1984, registrando mais de uma dezena de sons ao todo, e juntando esse material ao que já havia sido gravado entre 1982 e 1983 poderia ter lançado um LP capaz de fazer do Mendes Prey uma das grandes bandas do Metal britânico. No entanto, apesar de algumas sondagens, nenhuma proposta de contrato chegou ao grupo, e esse inexplicável desprezo acabou aos poucos minando a resistência do dedicado e batalhador conjunto.

Em 1985, a NWOBHM já começava a perder força, e o futuro parecia pouco animador para o Mendes Prey. Com as coisas um tanto quietas dentro da banda, Jih Seymour arrisca-se nos lados da produção, e atua como co-produtor de uma demo do conjunto Sherwood, que mais tarde acabaria sendo lançada também como um EP independente. Depois de meses de pouca atividade, surge um convite vindo de uma gravadora sintomaticamente batizada LiL Records, e o Mendes Prey acaba participando da coletânea “Parkside Steelworks”, ao lado de um número considerável de bandas da região – a maioria delas de baixa qualidade, para sermos honestos. O Mendes Prey optou por utilizar duas gravações feitas ainda em 1983, e “Red Alert” e “Cry For the World” tornaram-se facilmente os grandes destaques de um álbum não mais do que mediano. Apesar da pequena tiragem do LP, o ressurgimento em vinil de Seymour e cia. chamou alguma atenção, e um grupo de empresários musicais resolveu investir pesado no conjunto, com o objetivo de gravar o single que finalmente faria do Mendes Prey o grande grupo que sempre teve potencial para ser. Infelizmente, ao invés de ser o passo decisivo rumo ao sucesso, essa parceria acabou sendo o começo do fim para a banda.

Sob pressão de seus ‘managers’, o quarteto adotou um visual mais pop, com cabelos cortados e roupas coloridas (como se pode ver na foto ao lado), e após certa insistência acabou concordando em gravar uma versão de “Wonderland”, uma sinceramente já não muito boa composição do Demon. Foi essa gravação que finalmente surgiu no início de 1986 como lado A do segundo single da banda, com a composição própria “Can You Believe It” como lado B. Ambas as composições, de qualquer modo, haviam recebido um ‘banho de loja’ durante a mixagem, e o resultado ficou muito mais próximo do pop rock do que do Hard / Heavy que sempre caracterizou o Mendes Prey. Resultado: mesmo sendo lançado em dois formatos (7″ e 12″, com o último contendo uma vrs. mais extensa de “Wonderland”), o single foi um fracasso de vendas, que não só falhou em chamar a atenção de um novo público como desapontou boa parte dos antigos fãs, que preferiram não investir seu dinheiro nas ‘experimentações’ de seus antigos heróis.

Diante desse fracasso, não havia mesmo muita alternativa para a banda. Jih Seymour, depois de mais de dez anos de rock e tendo lutado por cerca de sete anos para fazer do Mendes Prey um grupo bem sucedido, optou por abandonar a vida de músico e se mudou para a Austrália ao lado da futura esposa, nascida no país em questão. Sem a presença do talentoso e dedicado vocalista, os membros restantes não se sentiram propensos a continuar a luta, e antes do final de 1986 o Mendes Prey não existia mais. Os músicos abandonaram a carreira musical, e durante muito tempo o antigo conjunto foi deixado em quase completo esquecimento. No final dos anos 90, porém, uma onda de renovado interesse pela NWOBHM surgiu com a proximidade dos 20 anos do movimento, e logo exemplares do outrora esquecido material do Mendes Prey passaram a ser vendidos por altos valores no mercado de colecionadores de vinil. Nessa época, falou-se bastante na confecção de um website oficial da banda, e boatos davam como certo o lançamento de um CD com material nunca lançado oficialmente. No entanto, a situação esfriou sem que nem uma coisa nem outra virasse realidade. Recentemente, no entanto, Jih Seymour (atualmente atuando como coordenador de programação de uma emissora australiana de rádio) adquiriu os direitos do domínio http://www.mendesprey.com , e uma versão inicial do site já está no ar, prometendo para breve uma quantidade considerável de material sobre a história do velho grupo britânico. Contatos já foram feitos no sentido de viabilizar um CD com material da banda, e se houver justiça no mundo em breve teremos a chance de adquirir material oficial dessa grande banda da NWOBHM, que merecia ter ido muito mais longe do que de fato conseguiu. Aguardaremos desdobramentos com enorme expectativa e muita esperança.

Agradecimentos a Malc McMillan e sua “The NWOBHM Encyclopedia”, ao extinto site Dunsy’s Cupboard of Metal e ao próprio Jih Seymour, que gentilmente forneceu boa parte das informações contidas nessa biografia. Muito obrigado, de verdade.

MÚSICOS
Jih Seymour (V)
Steve Holt (G) – até 1983
Phil Lawn (G) —> Richard Emsley —> Mark Sutcliffe
Tony Boulton (B)
Martin Brough (D)
Steve Allen (K) – 1983

DISCOGRAFIA
On To the Borderline (7” single, 1982), Heavy Metal Heroes Volume 2 (part. em coletânea, 1982), Parkside Steelworks (part. em coletânea, 1985), Wonderland (7” e 12” single, 1986).

SITE OFICIAL: http://www.mendesprey.com

Ago
03

Qualquer fã de Heavy Metal minimamente interessado na história do estilo tem algum conhecimento sobre a New Wave of British Heavy Metal – ou NWOBHM, movimento ocorrido no Reino Unido durante a primeira metade dos anos 80 e que trouxe ao mundo bandas como Saxon, Angel Witch, Def Leppard e o seminal Iron Maiden. No seio desta verdadeira febre musical surgiram as sementes que, tempos depois, dariam frutos como o Thrash, o Doom e o Death/Black Metal – fato que, por si só, inscreve o período em questão entre os mais importantes, senão o mais importante da história do Metal. O que poucos sabem é que, entre as muitas sub-cenas que se desenvolveram durante aqueles anos, uma muito curiosa tomou corpo na região do País de Gales. Sua principal característica é ter dado origem a um número considerável de bandas que usavam o idioma local, o Galês, para cantarem suas músicas, em oposição ao inglês privilegiado no restante do território britânico. Embora não tenham de modo algum igualado o (razoável) sucesso de outras bandas galesas como o Persian Risk e o Traitors Gate, que preferiam usar o inglês, o fato é que esses conjuntos, com seu apego às tradições locais, construíram uma história fascinante, embora até agora não documentada de modo adequado.

Na verdade, o grande problema com que nos deparamos ao tentar (re) contar essa história é a escassez de fontes e, principalmente, a dificuldade de encontrar a grande maioria dos itens lançados por esses grupos – na verdade, como qualquer colecionador de raridades do período terá o maior prazer de confirmar, é simplesmente impossível dizer com segurança o que há para ser descoberto, com alguns itens sendo hoje conhecidos apenas na razão de um ou dois exemplares. Um grande pioneiro nessa pesquisa é Malc McMillan, autor do colossal “The NWOBHM Encyclopedia” e nome ao qual o artigo que se segue deve boa parte de suas informações. No entanto, como a citada obra foi publicada em 2001, um número considerável de descobertas foram feitas de lá para cá, de modo que uma tentativa de atualização não é de todo descabida.

Antes de seguirmos em frente, deixemos claro: a absoluta maioria desses trabalhos é dificílima de encontrar hoje em dia, e prepare-se para gastar muito tempo (e dinheiro) se pretender adicionar um original desses itens à sua coleção. Este mesmo que vos fala teve a oportunidade de ouvir muito pouco do material que é discutido nesse trabalho, e a maioria das referências à sonoridade das bandas é admitidamente de segunda ou terceira mão, o que sem dúvida causa imperfeições na descrição dos conjuntos. Na verdade, o grande interesse desse artigo é de cunho acadêmico: conceder um pedaço de história a grupos que, bem ou mal, fizeram parte da história do Heavy Metal, e dar alguma informação curiosa à todos que, como eu, são obcecados pelo passado deste tão apaixonante estilo musical e de vida.

Abaixo, vão listadas as bandas que são conhecidas dos apreciadores / colecionadores da NWOBHM, seguidas de uma descrição (a mais acurada possível) sobre sua carreira e discografia. De novo, a maioria desses itens é bastante rara, de modo que em breve novas descobertas ou correções podem surgir, mudando o que está escrito aqui. De qualquer modo, vamos lá:

CEFFYL PREN

Até o momento, são conhecidos dois 7″ singles desta obscura formação sediada provavelmente na cidade de Glamorgan. O mais antigo (foto) data de 1984, e foi lançado pela minúscula Anthem Records. Apresentando “Collasant Eu Gwaed” e uma versão em galês de “Bedside Radio” do Krokus (aqui batizada “Roc Ar Y Radio”), o citado single divide opiniões entre os (poucos) que o possuem: há quem ame, assim como os que odeiam o mesmo com grande devoção. Recentemente, foi descoberto um segundo item de 1987, editado pela igualmente pequena Graffeg Records, que apresenta “Roc Roc Nadolig” (uma canção de Natal, aparentemente) e “Bangkok”. Analisando a ficha técnica, descobre-se que o baterista Tim Lewis é o único músico a participar das duas formações da banda, o que não deixa de ser curioso. Nesse segundo single, o Ceffyl Pren executa um Hard/Heavy bastante acessível, mas de sonoridade agradável e com um uso interessante de teclados. Ambas as faixas são bem construídas e musicalmente interessantes, e aficionados pela NWOBHM certamente apreciarão o trabalho simples mas satisfatório do conjunto. Aparentemente, a banda acabou antes da virada da década, e nenhum material adicional do conjunto é conhecido até o momento. De qualquer modo, eles certamente eram a banda da região com o nome mais legal – Ceffyl Pren era um meio de humilhação pública de criminosos na antiga sociedade galesa: o bandido era forçado a sentar-se em um cavalo de madeira (o tal Ceffyl Pren) e era conduzido pelas redondezas, exposto ao escárnio e eventuais apedrejamentos da multidão. Interessante, sem dúvida.
MÚSICOS:
Gareth Morlais (V) – – – > Alun Wyn Davies (em “Roc Roc Nadolig”)
Tosh Stuart (G) – – – > Huw John (em “Roc Roc Nadolig”)
Wyn Lewis Jones (B) – – – > Marc Hammond (em “Roc Roc Nadolig”)
Tim Lewis (D)
Jon Evvo (K) (em “Roc Roc Nadolig”)
DISCOGRAFIA: Collasant Eu Gwaed (7″, 1984), Roc Roc Nadolig (7″, 1987).

CRYS

Talvez a mais “clássica” das bandas aqui citadas e provavelmente a que foi mais longe de todas elas, o Crys foi formado provavelmente no final dos anos 70 pelos irmãos Scott (b) e Liam Forde (v/g), e seu primeiro lançamento foi um 7″ single em 1980, contendo “Lan Yn Y Gogledd” e “Cawd Symud” como lado B. O single foi lançado pelo minúsculo selo Click Records e tem uma capa na verdade bastante feia, mostrando os quatro músicos envolvidos ao lado de uma pichação com o nome da banda. Além dos Forde, gravaram o single os músicos Alun Morgan (g) e Nicky Samuel (d). Em termos de sonoridade, podemos aproximar o Crys de conjuntos como Black Rose e Fist – talvez não tão qualificado quanto os citados mas ainda assim um competente representante da NWOBHM. Aparentemente, a repercussão do single de estréia foi bastante boa em sua área natal, uma vez que a razoavelmente conceituada Sain Records (até hoje uma das mais atuantes gravadoras da região) se interessou pela banda e logo passou a distribuir os trabalhos do quarteto. Em 1981, chegava às lojas o primeiro Lp do Crys, “Rhyfelwr” (foto). Contendo dez faixas, alguns colecionadores o consideram uma pérola do período, embora a grande maioria dos mortais não tenha sido afortunada com a sorte de poder ouvir o material e tirar suas próprias conclusões. No ano seguinte, sairia o segundo “full lenght” do conjunto, chamado “Tymor Yr Heliwr”, respondendo por um estilo bastante próximo ao do disco anterior – porém, a confiarmos em nossas fontes, sem alcançar o bom nível musical de seu antecessor. Ainda nesse ano, o Crys apareceria na coletânea “Gorau Sgrech – Sgrechian Corwen”, ao lado de gente como os mods do Ail Symudiad, Tich Gwilym (músico que tocou com o Budgie) e o respeitado músico folk Meic Stevens. No início de 1983, o Crys faz sua grande tentativa de se fazer ouvir fora do País de Gales, e participa do famoso “Friday Rock Show” da BBC, programa que toda semana trazia um grupo emergente da cena britânica para tocar algumas músicas ao vivo. Até onde sabemos, foi o único grupo NWOBHM cantando em Galês a conseguir espaço no programa, e no dia 28 de janeiro de 1983 foram ao ar quatro músicas, incluindo as duas primeiras (e, até onde sabemos, únicas) gravações do Crys em inglês, “It’s About Time” and “Rockin’ Along”. Os outros dois temas da noite foram “Pendoncwyr” e Merched Gwillt A Gwin”, ambos tirados de seu segundo LP. Em 1984, apareceriam em uma outra compilação da Sain Records, “Barod Am Roc”, e o fato do título do disco ser também o título da música cedida pelo Crys para o álbum é sinal evidente de que, ao menos na região de Gales, a banda vivia um momento muitíssimo promissor. No entanto, nem sempre as aparências correspondem à realidade, e o grupo sumiu do mapa na segunda metade da década de 80, enquanto seus discos e conquistas caíam no esquecimento. Durante anos, não se teve qualquer notícia do Crys, e qualquer um julgaria que a banda havia simplesmente sumido do mapa. Qual não é nossa surpresa ao encontrarmos “Roc Cafe”, CD lançado pela Fflach Records em 1995 que mostra o Crys em grande forma, tocando de modo apaixonado e com várias músicas muito interessantes em seu repertório. A única mudança na formação é a entrada de Mark Thomas na guitarra, e apesar da apresentação visual bastante simples (pouco mais do que um selo na caixinha de acrílico com o nome da banda e do CD), uma simples audição do mesmo mostra uma banda coesa e altamente qualificada, proporcionando considerável satisfação aos entusiastas do período. De qualquer modo, seria uma ótima notícia se o Crys ainda estivesse de algum modo na ativa, mantendo vivo o legado do que já são 25 anos de história. Aguardamos ansiosamente por futuros desdobramentos.
MÚSICOS:
Liam Forde (V,G)
Alun Morgan (G) – – – > Mark Thomas (em “Roc Cafe”)
Scott Forde (B)
Nicky Samuel (D)
DISCOGRAFIA: Lan Yn Y Gogledd (7″, 1980), Rhyfelwr (LP, 1981), Tymor Yr Heliwr (LP, 1982), Gorau Sgrech – Sgrechian Corwen (compilação em LP, 1982), Barod Am Roc (compilação em LP, 1984), Roc Cafe (CD, 1995).

DORCAS

Até o momento, são conhecidas três faixas gravadas por essa quase esotérica formação de Gales. Duas delas (“Blwyddyn Arall” e “Nyth Y Frân”) estão presentes em um single independente de 1984, item raríssimo que pouquíssimos colecionares podem se gabar de possuir. Aparentemente, a banda operava num estilo próximo ao hard/heavy setentista, com forte trabalho de guitarras numa linha Wishbone Ash de ser. Uma curiosidade sobre essa gravação é o fato de que cada uma das faixas foi gravada com um baixista diferente (um deles Deiniol Morris, também envolvido com o Maffia Mr. Huws), o que dá uma noção de como a formação da banda deveria ser instável na época. A terceira canção conhecida do Dorcas é “Does Dim Mwy O Win”, que já há algum tempo circula entre os mais obcecados pela época como um arquivo mp3. Por muito tempo, a gravação foi creditada como parte de uma demo da banda, mas hoje se sabe que na verdade ela foi retirada de uma virtualmente desconhecida coletânea chamada “Cadw Reiat”, lançada pela Sain Records em 1986. De qualquer modo, ninguém ainda se ergueu para dizer que tem um exemplar da compilação em questão, de modo que detalhes mais esclarecedores sobre o disco (e a ficha técnica da gravação) continuam, até esse momento, um mistério.
MÚSICOS:
Colin Roberts (V)
Rhys Evans (G)
Deiniol Morris (B)
John Hywel Morris(B)
Peter Roberts (D)
DISCOGRAFIA: Blwyddyn Arall (7’’, 1984), Cadw Reiat (compilação, 1986).

LOUIS A’R ROCYRS

A banda foi formada pelo músico Louis Thomas depois de seu desligamento do grupo folk / rock Bran. O primeiro lançamento desse projeto parece ter sido um single, lançado de modo independente em 1983 e contendo “Fodan” como principal chamariz. Infelizmente, por mais que me esforçasse não consegui descobrir qual seria o lado B, mas aparentemente o projeto ainda não era tão NWOBHM assim, pendendo um pouco mais para o punk rock. O outro lançamento conhecido do Louis A’r Rocyrs até o momento é um 7″ single lançado pela Sain em 1984, contendo “Sianel 3” e “Y Sipsiwns” como lado B (foto). Os relatos indicam uma guinada na carreira de Louis a partir desse vinil, rumando para um som bem mais próximo do Hard Rock, de modo que faz sentido a inclusão do artista neste artigo sobre NWOBHM, uma vez que a época e sonoridade batem. De qualquer modo, parece ter sido um projeto de vida curta, e logo Louis Thomas voltaria para a razoável segurança que a música folk o proporcionava, restando esse escasso material como lembrança de seus dias “de Metal”. Na verdade, o material parece tão esquecido atualmente que é um dos poucos que ainda pode ser comprado por um valor relativamente aceitável – se você for capaz de localizar um exemplar, claro.
MÚSICOS
Desconhecidos até o momento.
DISCOGRAFIA: Fodan (7″, 1983), Sianel 3 (7”, 1984).

OMEGA

Pouco se sabe sobre esse conjunto, a não ser que de algum modo ele foi um dos poucos grupos aqui citados capazes de legar ao mundo um LP auto-intitulado (foto) antes de sumirem no esquecimento. Apresentando dois músicos envolvidos também com o Rohan (Graham Land e Bev Jones), o Omega participou da coletânea “Gorau Sgrech – Sgrechian Corwen” em 1982 (com a música “Nansi”) antes de editar esse LP individual. Lançado pela Sain Records em 1983, o álbum em questão investe em um estilo próximo do rock progressivo, mas supostamente com um forte trabalho de guitarras tipicamente NWOBHM. Pouquíssimos tiveram a chance de ver um exemplar dessa obscuridade, que dirá ouvir a música nela contida, mas creio que o material qualifica-se dentro dos parâmetros básicos do movimento, merecendo ser citado por aqui. Do mesmo modo, não se sabe se há mais material do Omega dando sopa em algum lugar por aí, de maneira que teremos que aguardar algum tempo antes de podermos dar informações mais acuradas a respeito do conjunto.
MÚSICOS
Delwyn Sion
Graham Land
Len Jones
Gorwel Owen
Bev Jones
DISCOGRAFIA: Gorau Sgrech – Sgrechian Corwen (compilação em LP, 1982), Omega (LP, 1983).

RHIANNON TOMOS A’R BAND

Rhiannon Tomos é uma vocalista de timbre bastante semelhante ao de Doro Pesch (Warlock), que andou se metendo em algumas empreitadas metálicas na primeira metade dos anos 80. Temos indícios de material gravado pela cantora em 1979 ou até mais cedo, mas o primeiro registro de Rhiannon cuja existência pudemos comprovar é a raríssima coletânea “Yn Dawel Hyd Nawr” (foto abaixo), lançada pela desconhecida Legless Records em 1980. Aparentemente, trata-se de uma compilação realçando a participação feminina na cena musical galesa, e Rhiannon (ainda assinando sem o “A’r Band”) participa com duas faixas, “India’r Prynhawn” e “Cinderella”. Tudo indica que a participação da vocalista tenha agradado bastante, pois a Sain Records apressou-se em assinar com a moça, e em 1981 chegava às lojas o LP “Dwed Y Gwir”. Com um estilo oscilando entre o Hard Rock setentista e o Heavy Metal, Rhiannon conseguiu alguma repercussão, mas não o suficiente para superar as estreitas fronteiras da cena local. Em 1982, duas faixas da banda (“Rosaline” e “Cer A Hi”) aparecem na compilação “Gorau Sgrech – Sgrechian Corwen”, e no ano seguinte a vocalista emprestou sua voz ao Y Diawled (ver nota abaixo), gravando com eles o ótimo 7″ single “Noson Y Blaidd”. A última aventura conhecida de Rhiannon no reino do Metal (para mim, pelo menos) é a participação da Rhiannon Tomos A’r Band na coletânea “Barod Am Roc”, de 1984, na qual contribuem com “Chm Hiraeth”, música gravada em 1980 e que pode (ou não) ter sido lançada anteriormente em um 7″ single ou algo do tipo. De qualquer modo, a cantora parece ter desistido do Rock N Roll, e a partir da segunda metade dos anos 80 passou a investir na música folk, assumindo o nome artístico de Rhiannon Thomas e lançando alguns trabalhos esporádicos desde então. Seja como for, surpresa: em 2004, o Rhiannon Tomos A’r Band reúne-se especialmente para participar do Faenol Festival, organizado por Bryn Terfel, compositor clássico que é nome emblemático para a cena musical do País de Gales. Se isso significa ou não o retorno definitivo de Rhiannon ao Hard / Heavy, só o tempo dirá. Aguardamos atentamente por novidades, quanto mais brevemente melhor.


MÚSICOS:
Rhiannon Tomos (V)
Meredydd Morris (G)
Len Jones (G)
Mark Jones (B)
Graham Land (D)
Eric B. (?)
Simon Tassano (?)
DISCOGRAFIA: Yn Dawel Hyd Nawr (compilação em LP, 1980), Dwed Y Gwyr (LP, 1981), Gorau Sgrech – Sgrechian Corwen (compilação em LP, 1982), Barod Am Roc (compilação em LP, 1984).

ROHAN
Operando em uma linha mais próxima do rock progressivo, mas com algumas tiradas épicas tipicamente Heavy Metal, o Rohan acaba encaixando no rótulo NWOBHM por ter lançado um single em 1984, adequando-se ao período básico do movimento. O vinil, contendo “Mil O Fastiau” e “Rasus T.T.”, tem uma capa bastante genérica, e deve ter levado algum tempo até alguém se dar conta de que ali poderia estar uma banda de interesse para colecionadores da NWOBHM. Seja como for, o conjunto sumiu do mapa por muitos anos, e só em 1996 ressurge inesperadamente com um CD independente auto-intitulado (foto). Aparentemente, trata-se de material relativamente recente, embora a possibilidade de ser uma compilação com gravações de arquivo não possa ser plenamente descartada. Contendo seis longas músicas (a maioria com inspiração na obra literária de Tolkien), o material explora sem pudor várias influências de música folclórica da região, mas mantém o peso e a energia necessários para agradar fãs menos xiitas da NWOBHM. O CD é relativamente fácil de encontrar (com alguma procura, até sites da Internet o oferecem a um preço razoável) e acaba sendo uma alternativa bem mais viável do que o há muito esgotado single – mesmo porque contém uma regravação de “Mil o Fastiau”, o que o dota de interesse ainda maior. Não há informações sobre o Rohan ainda estar na ativa, mas esperamos que esteja, perpetuando seu trabalho com honestidade e competência.
MÚSICOS:
Dace Evans (V)
Charlie Goodall (G)
Bev Jones (B)
Graham (La) Land (D)
DISCOGRAFIA: Mil O Fastiau (7”, 1984), Rohan (CD, 1996).

TROBWLL
Possivelmente a mais antiga banda de Gales a encaixar no rótulo NWOBHM, o Trobwll tinha como nome proeminente o vocalista / guitarrista Richard Morris – que mais tarde produziria o primeiro single do Crys e que se envolveria como músico e / ou produtor em inúmeros outros projetos musicais no decorrer da década, a maioria deles com pouca ou nenhuma conexão com NWOBHM. Morris era também dono de um estúdio chamado Stiwdio’r Bwthyn, onde trabalhou com conjuntos de certo nome em seu país natal, como o Ellifant. O único material do Trobwll conhecido de nós até o momento é um 7″ single bastante raro, lançado pelo pequeno selo Buwch Hapus em 1979. Trata-se de uma única música (“Taith”) que se espalha pelos dois lados do vinil, misturando influências de rock progressivo com alguns riffs mais pesados na linha do Hard / Heavy setentista. Poucos detalhes a respeito da história da banda são conhecidos até o momento, e é bem possível que o grupo pouco mais fosse do que um projeto de estúdio de Richard Morris, sem maiores aspirações comerciais e montado exclusivamente para essa gravação. Provavelmente a ligação do Trobwll com a NWOBHM seja casual e não-intencional – mas a essa altura isso pouco importa, uma vez que o nome do grupo já está ligado de modo inabalável ao movimento, e colecionadores mais obcecados venderão a mãe para porem suas mãos em uma cópia autêntica deste item.
MÚSICOS:
Richard Morris (V,G)
Steve Lewis (G)
Mark Jones (B)
Mel Turner (D)
DISCOGRAFIA: Taith (Rhan I, Rhan II) (7″, 1979).

TRYDAN
Uma das mais obscuras bandas do período em questão, o Trydan era uma formação um tanto incomum, contando com três vocalistas e com seis membros, três deles homens e três mulheres. Quase nada se sabe sobre a história do conjunto (que, a julgar pelos quatro sobrenomes “Jones” na formação, era algum tipo de negócio em família), e seu único lançamento conhecido hoje em dia é um EP de três faixas, lançado pela Sain Records em 1980. “Mods a Rocers”, faixa que dá título ao material, é tida como a mais “metal” das canções, enquanto as outras duas (“Di-waith, Di-‘fynedd” e “Mr. Urdd”) teriam um nível de qualidade bem inferior, sendo o vinil em si um material restrito aos mais fanáticos consumidores de material da época em questão. Curiosamente, um outro Trydan surgiu recentemente na mesma região, com um som voltado para conjuntos atuais como o Creed e o The Darkness. No entanto, o Trydan de hoje é formado por garotos na faixa dos 15 anos, então não os confunda com seus (há muito finados) homônimos da NWOBHM.
MÚSICOS:
Meic Jones (V,G)
Linda Williams (V)
Sharon Jones (V)
Carol Jones (G)
Dafydd Elis (B)
Garym Jones (D)
DISCOGRAFIA: Mods A Rocers (7″, 1980).

WENFFLAM

Infelizmente, não há muito o que informar sobre essa quase desconhecida banda, cujo único registro catalogado até hoje é um 7″ single lançado pela esotérica gravadora Tryfan em 1986, apresentando “Deigryn Du” e “Mynadd Byw” como lado B. Na verdade, o ano de lançamento é um pouco além do que a maioria dos interessados considera NWOBHM, mas julguei interessante incluir o grupo aqui porque, além de ser certamente uma banda de Heavy Metal (o logo do grupo na capa do single não deixa dúvidas), existe uma razoável possibilidade de lançamentos anteriores do Wenfflam surgirem em determinado ponto no futuro. Seja como for, o item é desconhecido de quase todo mundo e não é visto um novo exemplar há um bom tempo, o que indica que a prensagem do mesmo deve ter sido minúscula. Vale como curiosidade histórica, creio eu.
MÚSICOS:
Desconhecidos até o momento
DISCOGRAFIA: Deigryn Du (7″, 1986).

Y DIAWLED

Eis um conjunto que os mais perseverantes (obcecados?) colecionadores da NWOBHM têm em grande estima, e seus lançamentos são creditados como relevantes contribuições ao cenário metálico da época. A mais antiga gravação conhecida dessa banda oriunda de Crymych data de 1982, e aparece em uma raríssima compilação em EP, lançada pela Fflach Records sobre o nome “Gyda Chymorth C.A.C.”. A faixa em questão chama-se “Shwt Mae Siapus?”, e já naqueles dias o conjunto se mostrava um dos mais “metálicos” de sua região, com um som pesado e energético que se encaixava com perfeição na estética do período. No ano seguinte, a Fflach decide dar ao novato conjunto a chance de lançar seu próprio 7″ single, e logo o vinil contendo “S.O.S.” e “Llinos Yn Y Lleder Du” chegava às lojas da região. A produção ficou a cargo de Richard Morris, o mesmo que gravou com o Crys e centenas de outros grupos e ainda achou tempo para seu projeto Trobwll (ver nota acima). A música em si é de boa qualidade, lembrando nomes da NWOBHM como Wolf e Savage e mostrando-se desde então o Y Diawled como o mais “Metal” dos conjuntos que cantavam em galês na época. O material mais conhecido do Y Diawled, no entanto, seria lançado ainda em 1983 pela Sain Records e contaria com a qualificada participação da cantora Rhiannon Tomos (ver nota acima), substituindo o vocalista original Kevin Davies. Aliás, a união de forças entre a vocalista e o conjunto não parece ter sido muito natural, e eu não me surpreenderia se essa colaboração não tivesse sido idéia da própria gravadora, juntando a talentosa cantora com uma banda superior à que a acompanhava normalmente com o intuito de criar uma espécie de super-grupo (para os padrões locais, ao menos). Seja como for, trata-se de um single de alta qualidade, com duas músicas pesadas e muito bem arranjadas (a excelente “Noson Y Blaidd” e “Dewch Gyda Ni”), e não tenho dúvidas de que poderia ter alcançado uma repercussão bem maior se tivesse contado com uma boa distribuição nacional – talvez letras em inglês também tivessem ajudado, de qualquer modo. O single chegou a receber uma resenha na revista “Kerrang” (para muitos a bíblia da NWOBHM), mas a mesma acabou sendo um tanto injusta ao ligar o Y Diawled a conjuntos folk do País de Gales – e, acredite-me, apenas um eventual preconceito com a língua galesa justifica essa opinião, pois o material é puro NWOBHM de ponta a ponta. De qualquer modo, logo a vocalista Rhiannon Tomos desligou-se do grupo e partiu para uma carreira solo como cantora folk, e é crível que esse desfalque, somado à falta de maiores perspectivas fora da diminuta cena local, tenha sido o fim do competente e promissor conjunto. Mas, de qualquer modo, restaram esses escassos lançamentos em vinil como legado de sua existência, e os perseverantes colecionadores da NWOBHM hão de preservar essas preciosidades pelos anos que virão.
MÚSICOS:
Kevin Davies (V) – – – > Rhiannon Tomos (em “Noson Y Blaidd”)
Aled Davies (G)
Geraint Williams (G)
Carwyn Davies (B)
Paul Philips (D)
DISCOGRAFIA: Gyda Chymorth C.A.C. (compilação em EP, 1982), S.O.S. (7’’, 1983), Noson Y Blaidd (7″, 1983).

Além dos trabalhos acima, listamos a seguir uma série de itens que, de um modo ou de outro, acabaram associados à cena da NWOBHM. Alguns são tão obscuros que não se pode afirmar com certeza no que consiste sua música, outros foram por algum motivo tidos como NWOBHM quando na verdade pouco ou nada tinham a ver com o estilo. Como já dito algumas vezes no decorrer do artigo, esperamos que o tempo esclareça algumas destas dúvidas – muito embora uma maior cooperação e honestidade entre os que possuem / procuram essas obscuridades em vinil já fosse uma enorme ajuda. Na verdade, é comum termos informações desencontradas concernentes a essas bandas, lançadas ora por vendedores sequiosos de lucro que pouco se importam com uma descrição acurada dos itens que vendem, ora por colecionadores que querem supervalorizar suas coleções particulares (em uma atitude “eu tenho, você não tem” não menos do que ridícula) e acabam falando o que não devem. Como a maioria das pessoas nunca terá acesso a essas raridades e é forçada (como eu) a reproduzir relatos de segunda mão, é muito fácil deixar-se levar pelo entusiasmo e reproduzir inverdades como se fossem fatos historicamente comprovados. Não me considero isento de tais falhas, e admito a possibilidade de estar errado sobre algumas colocações – mas procurei checar ao máximo o caráter “metálico” das bandas citadas, e quando não as pude ouvir busquei confrontar o máximo de relatos possível na tentativa de encontrar um meio-termo. Assim sendo, eis as bandas que, por algum motivo, não me senti levado a afirmar acima de dúvida serem NWOBHM:

CRATOR: Esse sim é obscuro. Referências muito vagas têm sido feitas a um EP que teria sido lançado por esse conjunto em 1979, e que seria uma verdadeira pérola não-descoberta da NWOBHM. Lançado por uma tal Recordiau Lloer, O EP conteria as faixas “Gelin Yr Awyr”, “Blas Da” e “Fy Mreuddwyd I”. Tudo muito bonito, mas poderemos chamar o Crator de NWOBHM? O ano de lançamento bate com o usualmente aceito, e até faria do Crator um dos pioneiros de sua região, mas sem qualquer referência ao som fica difícil dar esses méritos ao conjunto. Ficamos na espera de novos dados, embora com uma esperança especial nesse caso.

ERYR WEN – É conhecimento público que o conjunto participou junto com o Y Diawled e mais dois outros grupos (Malcolm Neon e Ficer, os quais sabidamente não têm qualquer ligação sonora com a NWOBHM) da coletânea em EP Gyda Chymorth C.A.C., em 1982. Recentemente, localizou-se também dois 7″ singles, um de 1983 contendo “Siop Dillad Bala” como lado A, e outro de 1985 que destaca “Genhedlaeth Goll”. Embora muitos considerem o Eryr Wen um autêntico conjunto da NWOBHM, citações à utilização de trompetes e à influências pop põem em dúvida tal certeza, sendo perfeitamente possível que o conjunto tenha uma sonoridade mais próxima da música mod ou mesmo do pop rock. O tempo dirá, de qualquer modo.

HELYNT – Uma descoberta recente (embora ainda um tanto nebulosa) é uma coletânea em 7″ de 1985 chamada “Popdri”. Aparentemente um item extremamente escasso, o citado vinil apresenta quatro (na época) jovens bandas locais, a maioria delas voltadas para o pop. Porém, a se crer em alguns relatos, o último grupo da citada compilação, chamado Helynt, seria um bastante qualificado representante da NWOBHM, com sua ” Deud Y Gwyr” sendo o ponto de interesse para entusiastas do período. Olhando a foto da banda na capa da compilação, eles não parecem muito com o que poderíamos esperar de uma banda de Heavy Metal – mas, como imagem não é tudo, é mais prudente esperar por novos dados antes de qualificá-la ou não como um legítimo representante da NWOBHM.

MAFFIA MR. HUWS – Eis um caso típico de confusão de estilos. A história do conjunto é conhecida até com certos detalhes: o grupo surge no final dos anos 70, gravando um single pela Fflach (“Gitar Yn Y To” / “Reggae Racs”) e participando da coletânea “Sesiwn Sosban”, ao lado de grupos como Ellifant e Derec Brown A’r Racaracwir. Ambos os lançamentos ocorrem em 1982. Em 1983, é lançado um LP chamado “Yr Orchr Arall”. Com a saída de Hefin Huws (G / V, que acaba montando um conjunto chamado Llwybr Cyhoeddus e posteriormente se envolve com o razoavelmente bem sucedido grupo punk Anhrefn) e Les Morrison (V), o Maffia Mr. Huws foi forçado a reinventar-se, adotando o nome Maffia e lançando em 1985 um 7″ single pela Sain com “Nid Diwedd Y Gan” e “Newyddion Heddiw” como lado B. Nesta gravação, Alan Edwards (que pode ser ou não o ex-baixista do grupo NWOBHM Panza Division) aparece como tecladista. O mesmo Edwards, lamentavelmente, morreria em 1987 vítima de um acidente automobilístico, o que pode ter acelerado o fim do conjunto. De qualquer modo, o grupo tem sido constantemente descrito como NWOBHM em vários lugares, inclusive constando como item nos sites nwobhm.com e metalmania.net, ambos conceituadas fontes sobre NWOBHM na Internet. No entanto, várias citações espalhadas por sites sobre a cena musical galesa me fizeram pôr em dúvida essa certeza, e me levaram a suspeitar que o Maffia Mr. Huws não fosse exatamente uma banda de Heavy Metal. Há pouco tempo atrás, finalmente localizei algumas gravações em mp3 do que seria um LP do Maffia chamado “Da Nim Yn O’th Gem Fach Di” (do qual, confesso, nunca tinha ouvido falar antes), e apesar de alguns números mais pesados como “Cigfran” e o medley ao vivo de “Dant Y Llew / Hysbysebion”, a banda soa muito mais como um pop rock à Men At Work do que qualquer outra coisa, isso sem contar as numerosas influências de reggae (!). Talvez a capa do primeiro single (que mostra alguns jovens cabeludos com jaquetas de couro e uma guitarra Flying V) tenha induzido algumas pessoas ao erro, e o senso comum foi perpetuando o equívoco, em uma prova cabal de que as aparências enganam. Talvez alguns de vocês ouçam a banda e a achem 100% NWOBHM, vá saber… Curiosidade: a banda voltou à ativa para um show único em 2000, e existem várias referências a um outro show do Maffia Mr. Huws ocorrido no Faenol Festival em um ano tão recente quanto 2004. Será que a banda de algum modo voltará à ativa? Mais desdobramentos em breve.

MWG – O 7″ single desta banda, contendo “Pesda ‘86” e “Darn O’r Haul” é creditado como NWOBHM pelo site rockdetector.com, mas pessoalmente não estou tão certo de que se trate realmente de algo ligado ao estilo. Os rapazes na capa (foto) não se parecem com típicos músicos de Metal, e não consegui encontrar qualquer outra referência à sonoridade do grupo em lugar algum – o que não deveria ser tão difícil, uma vez que o single foi lançado pela consideravelmente abrangente Sain Records no não tão remoto ano de 1986. Pouco se sabe sobre o grupo, a não ser que é oriundo da cidade de Bethesda e continha em suas fileiras o batalhador Huw Smith, o mesmo do Maffia Mr. Huws e do Llwybr Cyhoeddus, entre outros. De qualquer modo, não é o caso de dizer que há um equívoco evidente sobre o grupo, mas me parece interessante termos mais subsídios antes de incluirmos definitivamente o Mwg entre as bandas galesas da NWOBHM.

SHWN – Baseados na aparição da banda na coletânea “Barod Am Roc” em 1984, ao lado de grupos como o Crys e Rhiannon Tomos A’r Band, alguns não hesitam em listar o Shwn como um grupo raríssimo e de alto interesse para colecionadores da NWOBHM. Na verdade, o conjunto em questão atuou durante a segunda metade dos anos 70 com um estilo meio boogie bem típico da época em questão, de modo que não se trata exatamente de um material fundamental para fãs de Angel Witch ou Iron Maiden, ao mesmo tempo que perde o interesse temporal para colecionadores obcecados. O trabalho mais conhecido do grupo é o LP “Ar Garlam”, lançado pela Sain em 1977.

Y TRWYNAU COCH – O citado conjunto chegou a ser oferecido por vendedores de discos raros como NWOBHM, mas uma rápida pesquisa comprova sem maiores dificuldades que o Y Trwynau Coch foi na verdade um grupo punk / mod de razoável sucesso local. Sua discografia é razoavelmente extensa, contendo pelo menos seis itens lançados entre 1978 e 1983, mas como se trata de um caso evidente de “gato por lebre” nem vou me dar o trabalho de listar exaustivamente os itens lançados pela banda, uma vez que o interessado não precisará de mais do que uma breve pesquisa em um site de buscas para encontrar o que procura.

Por enquanto é isso. Evidentemente estamos abertos a qualquer informação que nos ajude a melhorar essa página – então, se você souber de alguma coisa que não sabemos sobre essas bandas (ou sobre outras porventura esquecidas aqui), ficaremos extremamente agradecidos com sua ajuda. Qualquer contato pode ser efetuado via e-mail: vieira.igor@gmail.com .

Agradecimentos especiais a Malc McMillan e sua “NWOBHM Encyclopedia”, Boris (Corwin) Bessarabov, aos sites The NWOBHM Online Encyclopedia e Rockdetector (links ao lado) e aos vários amigos anônimos que me forneceram mp3 e fotos muitíssimo úteis na concretização dessa pesquisa. Muito obrigado a todos.

Ago
03

Explicando brevemente quem sou e o que pretendo com esse blog. Meu nome é Igor, estou prestes a me formar em Jornalismo, e desde muito tempo sou fascinado por Heavy Metal oitentista em geral e NWOBHM em particular. Sempre me interessei muito em conhecer material da época, e em aprender sobre a trajetória das bandas que mais me agradavam. Infelizmente, é muito difícil acumular informações sobre essas bandas – e, em muitos casos, o material disponível em português é pouco confiável, ou mesmo inexistente. Aos poucos, fui desenvolvendo a idéia de criar um lugar específico para publicar informações sobre essas bandas, e assim contribuir um pouco para que os apreciadores da época tenham mais dados a respeito delas.

No início do ano, criei uma primeira versão do blog, que pode ser acessada nesse link. Focada mais especificamente na NWOBHM, essa primeira tentativa deu razoavelmente certo, mas acabei percebendo que eu queria tentar algo um pouco mais ambicioso. Tenho pesquisado muito sobre bandas fora da NWOBHM, e gostaria de poder falar delas também. Então, resolvi modificar um pouco a idéia inicial – e o resultado é esse blog aqui. Aberto ao Heavy Metal dos anos 80 de modo geral, o Metal Rorschach pretende publicar biografias, notícias, resenhas e entrevistas, sempre falando de bandas mais obscuras e diferentes do que geralmente se vê por aí. Por exemplo, sou um grande fã do Iron Maiden, mas vocês dificilmente verão artigos do Iron Maiden aqui – no máximo, alguma resenha de bootleg, e olhe lá. A NWOBHM, minha paixão pessoal, certamente será privilegiada, e possivelmente contará com a maioria dos posts – mas, a partir de agora, tudo que for Metal 80s terá sua chance por aqui.

Não publicarei links para download por aqui. Simplesmente, acho que existem muitos lugares onde os interessados podem conseguir esses links, e eu gostaria de manter esse blog principalmente como uma fonte de informação. Claro que os posts despertarão curiosidade sobre várias bandas, e nesse caso terei prazer em ajudar no que for possível para o pessoal obter material delas. Mas o blog não terá links para download – possivelmente alguns vídeos do YouTube, mas não mais do que isso.

Pretendo atualizar o blog sempre que possível. No entanto, ando bastante ocupado, e em breve começo a redigir minha monografia – ou seja, vai ser meio que um desafio manter o Metal Rorschach em atualização constante. Para isso, conto com a ajuda dos leitores, com sugestões, comentários e, se for o caso, críticas – e, por que não, com material também. Contar com colaboradores nessa empreitada seria bem interessante – sempre que alguém achar que pode oferecer conteúdo para esse blog, entre em contato, se o material for bom terei grande prazer em publicá-lo aqui.

Por enquanto é isso. Muito obrigado, e aproveitem a viagem.